1926-1974

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Pedro Oom

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Francisco Pedro dos Santos Oom do Vale nasceu em Santarém, a 24 de Junho de 1926.

Aos 2 anos acompanha a família para Setúbal e a partir dos 11 fixa-se na cidade de Lisboa. A aspiração do pai para que ingressasse no Colégio Militar foi recusada por Oom, ingressando na Escola António Arroio onde conheceu Júlio Pomar, Vespeira, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas e outros que viriam a aderir ao surrealismo (corrente que o definiu como poeta).

Oom, inicialmente ligado ao neo-realismo, ingressou, no final da década de 40, na corrente surrealista. Foi ele o mentor da teoria do abjeccionismo, em Portugal, ao redigir, em 1949, o Manifesto.

Aos 24 anos, órfão de pais, ingressa no INE, como funcionário público, onde segue uma carreira desconcertante de disciplina em relação ao período anterior da sua vida e um “interregno”, afastando-se de toda a actividade artística e literária ligada ao surrealismo.

Dedicou-se, entretanto, com entusiasmo, ao xadrez modalidade na qual se distinguiu.

Em 1962 deu por encerrada a sua vida como funcionário público, sai do INE, reingressando, dois anos passados, desta vez, no Ministério da Educação onde se dedicou a estudos de estatística sobre o ensino.

A sua obra literária, poética e panfletária, ficou dispersa sendo impregnada de uma ironia que vai dos tons mais violentos da contestação à mordacidade pessoal.

Morreu no dia 26 de Abril de 1974, pelas duas e trinta da tarde, no Restaurante “13” quando, com alguns amigos, festejava os acontecimentos que então se viviam apaixonadamente.

Abjeccionista, texto que se perdeu e de cujo conteúdo e concepções só podemos fazer uma ideia através de uma entrevista que Pedro Oom concedeu ao Jornal de Letras e Artes, em 1963.

Até 1974, os seus textos encontravam-se dispersos por jornais e revistas, e só postumamente foram reunidos e publicados em Actuação Escrita (1980).

Uma escrita fortemente influenciada pelo surrealismo, detectável na utilização até à obsessão de imagens insólitas.

A sua obra resume-se a um conjunto de pequenos textos englobados em Histórias para Crianças (Emancipadas), que não são mais que pequenos relatos sem quaisquer preocupações de verosimilhança e com um tom humorístico e irónico que se depreende logo dos títulos de alguns deles: «O Coelhinho que Nasceu numa Couve» ou «A Noiva Perna de Pau».


*Glossário


Surrealismo - Movimento artístico e literário surgido primariamente em Paris dos anos 20, inserido no contexto das vanguardas que viriam a definir o modernismo, reunindo artistas anteriormente ligados ao Dadaísmo e posteriormente expandido para outros países.

Mordacidade - Qualidade do que ´mordaz; sabor picante; crítica severa; maledicência



Pode-se escrever

Pode-se escrever sem ortografia

Pode-se escrever sem sintaxe

Pode-se escrever sem português

Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua

Pode-se escrever sem saber escrever

Pode-se pegar numa caneta sem haver escrita

Pode-se pegar na escrita sem haver caneta

Pode-se pegar na caneta sem haver caneta

Pode-se escrever sem caneta

Pode-se sem caneta escrever caneta

Pode-se sem escrever escrever plume

Pode-se escrever sem escrever

Pode-se escrever sem sabermos nada

Pode-se escrever nada sem sabermos

Pode-se escrever sabermos sem nada

Pode-se escrever nada

Pode-se escrever com nada

Pode-se escrever sem nada

Pode-se não escrever

Pedro Oom,

in "actuação escrita" &etc (1980)




Poema


Tua boca

é um dia estreito

cheio de moscas

De noite

tem a cor azul-verde

dum veneno

como o mar.

Pedro Oom



O HOMEM BISADO


Alegra-me ser todas as coisas e as sombras que elas projectam

ser a sombra dos teus seios e da tua boca

o criado de smoking branco que te agita os cabelos

para um cocktail estimulante e fresco

a mesa onde passo a ferro o teu corpo

as espádulas as coxas a curva macia dos joelhos

alegra-me ser o contorno da tua nuca e o binário motor dos teus braços

embora mais pequeno do que um corpúsculo celeste

sou os milhões de astros microrganismos estrelas

a rota de todos os navios perdidos

a angústia síntese de todos os suicidas

a forma de todos os animais conhecidos

o desenho rigoroso de toda a flora existente

Ontem em Paris hoje em Lisboa amanhã em Júpiter

caminho para a resolução de todos os problemas

sem a certeza de resolver qualquer deles

como se fosse uma máquina de somar parcelas

quatro vezes quatro oito vezes dez oitenta

sabe-me a vida ao que É

esta progressão assustadora de crocodilos bebendo limonada

Ontem fui a prostituta a quem paguei a noite

hoje serei talvez o inocente violentador frustrado

Sutmil é a cidade par aonde me evado todas as noites à aventura

e «os anéis de Saturno são a força centrífuga-centrípeta que me

agita os braços no espasmo amoroso»

a cabeça em Marte os pés na Terra

vindo «lá do fundo do horizonte lívido»

O comboio está na gare o comboio vai partir

apressemos o passo o momento é solene

somos o automóvel que sobe a avenida

a pulsação acelerada dos maquinismos

taxímetro de uma cidade de província

satélites de um satélite lunar

Tu és o aeroporto eu o avião que parte

e muito mais calmos entre éter e fogo

percorremos os sonhos de planeta em planeta desfolhando o futuro a flor sempre rara

e marcamos nos astros o nosso roteiro DEZ QUILÓMETROS

amanhã tirarei o curso de sonhador especializado

Pedro Oom





O COELHINHO QUE NASCEU NUMA COUVE


Era uma vez um coelhinho que nasceu numa couve.

Como os pais do coelhinho nunca mais aparecessem a couve passou a cuidar dele como se do seu próprio filho se tratasse.Com ervilhas tenras que cresciam ao seu redor a couve foi criando o coelhinho dentro do seu seio até que este passou a procurar a sua própria alimentação.O coelhinho, que tinha um coração muito bondoso, retribuindo o afecto que a couve lhe dedicava considerava-a como sua verdadeira mãe.A mãe couve e o seu filhinho adoptivo foram vivendo muito felizes até que um dia uma praga de gafanhotos se abateu sobre aquelas terras.O coelhinho ao ver que aqueles insectos vorazes devoravam tudo o que era verde cobriu com o seu próprio corpo o corpo da mãe couve e assim conseguiu que os gafanhotos pouco dano lhe fizessem.Quando aqueles insectos daninhos levantaram voo os campos em volta passaram a ser um imenso deserto de areias e pedra.O pobre coelhinho, que sempre tinha vivido nas proximidades da sua mãe couve, teve de deslocar-se para muitos quilómetros de distância a fim de procurar comida.Mas já nada havia que se pudesse mastigar naquelas terras.Passaram muitos dias e o pobre coelhinho estava cada vez mais magro mais magro e faminto.Então a mãe couve disse-lhe assim: “Ouve meu filho: é a lei da vida que os velhos têm de dar o lugar aos novos, por isso só vejo uma solução: assim como tu viveste durante algum tempo no meu seio, passarei a ser eu agora a viver dentro do teu. Compreendes, meu filho, o que eu quero dizer?”O pobre coelhinho compreendeu e, embora com grande tristeza na alma não teve outro remédio, comeu a mãe.

[N “2 HISTÓRIAS PARA CRIANÇAS (EMANCIPADAS) QUE ILUSTRAM A DIFERENÇA ENTRE O AMOR FILIAL E O AMOR CONJUGAL” (Também magistralmente dito por Mário Viegas em Humores, 1980)

Actuação Escrita, edição & etc (1980)]

Pedro Oom



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Opinião acerca do poeta e suas obras


De um modo geral, Pedro Oom expressava através dos seus poemas e contos para crianças o seu inconsciente e os sonhos. Este, como qualquer poeta surrealista da época, defendia a teoria de que a arte se devia libertar das exigências da lógica e da razão, e ir além da consciência quotidiana.




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"Que pode fazer um homem desesperado, quando o ar é um vómito e nós seres abjectos"


Pedro Oom

Trabalho realizado por: Melissa Pereira nº 14 10ºD