Isa Cardoso nº9 10ºD


António Aleixo





António Fernandes Aleixo em Vila Real de Santo António no dia 18 de Fevereiro de 1899.
Foi considerado um poeta popular tendo maior relevância no Algarve utilizando sempre a ironia nos seus versos.
Era uma pessoa pobre, humilde e simples conhecedor das diversas realidades da cultura e sociedade do seu tempo.
Sabe-se que para além de poeta foi também guardador de cabras, cantor popular de feira em feira, soldado polícia, tecelão e servente de pedreiro em França.
De regresso ao seu país, voltou para Loulé onde falece no dia 16 de Novembro de 1949 vítima de tuberculose, doença que em tempos havia vitimado uma das suas filhas.

Para homenagear o poeta e a sua obra, em Loulé foi construído um monumento em frente ao “Café Calcinha”, local que teria sido frequentado por este e foi fundada também a Fundação António Aleixo que permite atribuir bolsas de estudo aos mais carenciados.
180px-EstatuaAntonioAleixo.jpg
As suas obras foram apresentadas na televisão, rádio etc. Da sua autoria estão publicadas as seguintes obras:

  • Quando começo a cantar (1943);
  • Intencionais (1945);
  • Auto da vida e da morte (1948);
  • Auto do curandeiro (1949);
  • Auto do Ti Jaquim (1969) -este encontra-se incompleto;
  • Este livro que vos deixo (1969) - reunião de toda a obra do poeta;
  • Inéditos (1979) - tendo sido, estes quatro últimos, foram publicados postumamente.



http://www.youtube.com/watch?v=Bt0tdWOvbeQ



Poemas de António Aleixo


Vós que lá do vosso Império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
querer um Mundo novo a sério.

Em não tenho vistas largas
Nem grande sabedoria
Mas dão-me as horas amargas
Lições de Filosofia.



Que importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a Razão mesmo vencida,
não deixa de ser Razão.



Quem nada tem, nada come;
E ao pé de quem tem de comer,
Se alguém disser que tem fome,
Comete um crime, sem querer.




A quadra tem pouco espaço
Mas eu fico satisfeito
Quando numa quadra faço
Alguma coisa com jeito.





P'ra mentira ser segura
e atingir profundidade
tem de trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.





Mentiu com habilidade,
fez quantas mentiras quis,
Agora fala verdade,
ninguém crê no que ele diz.



Embora os meus olhos sejam,
os mais pequenos do Mundo
O que importa é que eles vejam
O que os homens são no fundo.



São parvos, não rias deles,
deixa-os ser, que não são sós:
Às vezes rimos daqueles,
que valem mais do que nós.



Julgando um dever cumprir,
Sem descer no meu critério,
Digo verdades a rir
Aos que me mentem a sério!



É fácil a qualquer cão
Tirar cordeiros da relva.
Tirar a presa ao leão
É difícil nesta selva.



Há luta por mil doutrinas.
Se querem que o mundo ande,
Façam das mil pequeninas
Uma só doutrina grande.



Quando os Homens se convençam
Que à força nada se faz,
Serão felizes os que pensam
Num mundo de amor e paz.



Tu, que tanto prometeste
enquanto nada podias,
hoje que podes esqueceste
tudo o que prometias...



Sei que pareço um ladrão...
mas há muitos que eu conheço
que, sem parecer o que são,
são aquilo que eu pareço.



O meu merceeiro é um santo
e há quem diga que ele é mau!
Digo-lhe só: -- dou mais tanto,
já me arranja bacalhau.



Sem que discurso eu pedisse,
ele falou, e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
do que disse não gostei

Morre o rico, dobram sinos;
Morre o pobre, não há dobres...
Que Deus é esse dos padres,

Que não faz caso dos pobres?


O mundo só pode ser
melhor do que até aqui,
quando consigas fazer
mais p'los outros que por ti!



Veste bem, já reparaste?
mas ele próprio ignora
que, por dentro, é um contraste
com o que mostra por fora.



Eu não sei porque razão
certos homens, a meu ver,
quanto mais pequenos são
maiores querem parecer.



Nas quadras que a gente vê,
quase sempre o mais bonito
está guardado pr'a quem lê
o que lá não está escrito.



Vemos gente bem vestida,
No aspecto desassombrada;
São tudo ilusões da vida,
Tudo é miséria dourada.~


Os novos que se envaidecem
Pelo muito que querem ser
São frutos bons que apodrecem
Mal começam a nascer.


Para triunfar depressa
cala contigo o que vejas
finge que não te interessa
aquilo que mais desejas.


Os que bons conselhos dão
ás vezes fazem-me rir
por ver que eles mesmos, são
incapazes de os seguir.


Por que a vida me empurrou
caí na lama, e então...
tomei-lhe a cor, mas não sou
a lama que muitos são.


Se os homens chegam a ver
Por que razão se consomem,
O homem deixa de ser
O lobo do outro homem.


Da guerra os grandes culpados
Que espalham a dor da terra,
São os menos acusados
Como culpados da guerra.


À guerra não ligues meia,
Porque alguns grandes da terra,
Vendo a guerra em terra alheia,
Não querem que acabe a guerra.





Quantas sedas aí vão,
quantos brancos colarinhos,
são pedacinhos de pão
roubados aos pobrezinhos!



Diz que viver é sofrer ...
concordo. Mas não compreendo
que ninguém ouse dizer
que se aprende sofrendo.



Muito contra o meu desejo,
sem lhe querer dizer porquê,
finjo sempre que não vejo
quem finge que me não vê...



Quem me vê dirá: não presta,
nem mesmo quando lhe fale,
porque ninguém traz na testa
o selo de quanto vale.



Não sou esperto nem bruto
Nem bem nem mal educado;
Sou simplesmente o produto
Do meio em que fui criado.

Quadras retiradas do livro:”Deste livro que vos deixo” , de António Aleixo