(Página da responsabilidade de Ana Filipa Temido, aluna nº 2 do 10ºD)

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Alexandre O’Neill


Auto-Retrato

ONeill (Alexandre), moreno
português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele ONeill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sobre a ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse...





Biografia

Nascimento:
19 de Dezembro de 1924 em Lisboa
Morte:
1986
Época:
Surrealismo
País:
Portugal


O poeta fez os estudos liceais, frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência, no ramo dos seguros, nas bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, e foi técnico de publicidade.
Durante algum tempo, publicou uma crónica semanal no Diário de Lisboa.
Em 1947 O'Neill, Cesariny e Mário Domingues começam a fazer experiências a nível da linguagem, na linha do surrealismo.
Por volta de 1948, fundou com o poeta Cesariny, com José-Augusto França, António Pedro e Vespeira o Grupo Surrealista de Lisboa.
Com a saída de Cesariny, em Agosto de 1948, o grupo cindiu-se em dois, dando origem ao Grupo Surrealista Dissidente (que integrou, além do próprio Cesariny, personalidades como António Maria Lisboa e Pedro Oom).
Em 1949, tiveram lugar as principais manifestações do movimento surrealista em Portugal, como a Exposição do Grupo Surrealista de Lisboa, onde expuseram Alexandre O'Neill, António DaCosta, António Pedro, Fernando de Azevedo, João Moniz Pereira, José-Augusto França e Vespeira. Nessa ocasião, Alexandre O'Neill publicou “A Ampola Miraculosa”. Esta obra poderá ser considerada paradigmática do surrealismo português.
Em Maio do mesmo ano, foi a vez de o Grupo Surrealista Dissidente organizar uma série de conferências com o título geral «O Surrealismo e o Seu Público», em que António Maria Lisboa leu o que se pode considerar o primeiro manifesto surrealista português. Houve ainda mais duas exposições levadas a cabo por este grupo (em Junho de 1949 e no ano seguinte, no mesmo mês), sem grande repercussão junto do público. A poesia de Alexandre O'Neill concilia uma atitude de vanguarda (surrealismo e experiências próximas do concretismo) que se manifesta no carácter lúdico do seu jogo com as palavras, no seu bestiário, que evidencia o lado surreal do real, ou nos típicos «inventários» surrealistas com a influência da tradição literária de autores como Nicolau Tolentino e o abade de Jazente, por exemplo.
Os seus textos caracterizam-se por uma intensa sátira a Portugal e aos portugueses, destruindo a imagem de um proletariado heróico criada pelo neo-realismo, a que contrapõe a vida mesquinha, a dor do quotidiano, vista no entanto sem dramatismos, ironicamente, numa alternância entre a constatação do absurdo da vida e o humor como única forma de se lhe opor.





Obras:

  • Tempo de Fantasmas (1951)
  • No Reino da Dinamarca (1958)
  • Abandono Vigiado (1960)
  • Poemas com Endereço (1962)
  • Feira Cabisbaixa (1965)
  • De Ombro na Ombreira (1969)
  • Entre a Cortina e a Vidraça (1972)
  • A Saca de Orelhas (1979)
  • As Horas Já de Números Vestidas (1981)
  • Dezanove Poemas (1983)
  • O Princípio da Utopia (1986)


Recebeu, em 1982, o Prémio da Associação de Críticos Literários.




Video:








Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.






Parecer:
Alexandre O'neil deu inicio ao surrealismo em Portugal, tendo criado o grupo surrealista de Lisboa.
Foi um escritor muito conceituado e na minha opinião o poema que despertou o meu interesse pela sua obra foi" Há Palavras que nos beijam".
Aconselho vivamente a darem uma vista de olhos na sua obra.