Página da responsabilidade de: Mónica Vilão, 10 C, nº18




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Mário Cesariny nasceu em1923, em Lisboa e começou o seu percurso na área do neo-realismo. O pintor e poeta, frequentou o Liceu Gil Vicente, o primeiro ano de Arquitectura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e a Escola de Artes Decorativas António Arroio, além de ter estudado música com Fernando Lopes Graça.
Quando partiu para Paris, onde estudou na Academia de La Grande Chaumière, teve um encontro que marcaria a sua vida e obra. André Breton, fundador do movimento surrealista francês, entrou na vida de Cesariny em 1947 e com ele o surrealismo. Quando regressou a Lisboa, Mário Cesariny já integrava o Grupo Surrealista de Lisboa e o movimento tê-lo-ia daí em diante como um dos seus principais embaixadores portugueses.
O Grupo Surrealista de Lisboa era formado por António Pedro, José-Augusto França, Cândido Costa Pinto, Marcelino Vespeira, João Moniz Pereira e Alexandre O'Neill e servia para protestar contra o regime político vigente em Portugal e contra o neo-realismo.
Quando terminaram as experiências colectivas, 1947/1953 e 1958/1963. Cesariny prosseguiu sozinho, como fariam alguns dos seus outros companheiros que sobreviveram à aventura surrealista, com uma actividade inesgotável e orientada em várias direcções.
Nas suas obras, adoptava uma atitude estética caracterizada pela constante experimentação e praticou uma técnica de escrita e de pintura muito divulgada entre os surrealistas, designada como "cadáver esquisito", que consistia na elaboração de uma obra por três ou quatro pessoas, num processo em cadeia criativa, em que cada um dava seguimento, em tempo real, à criatividade do anterior, conhecendo apenas uma parte do que aquele fizera.
Primeiro, dedicou-se à pintura de forma ocasional e, a partir de certa altura, de uma forma quase exclusiva, tendo deixando de lado algumas facetas do seu talento.
Primeiro, deixou de tocar piano, depois, foi a vez da escrita - "secou", dizia. Quando lhe perguntaram uma vez se não sentia necessidade de escrever, respondeu: "Nenhuma. Para quê? A quem?".
"A poesia foi um fogo muito grande que ardeu. Depois ficaram as cinzas. Não sou capaz de fazer versos porque sim. Acabou", declarou, no documentário.
"Sou um poeta bastante sofrível, um grande poeta numa época em que o tecto está muito baixo”. Da sua extensa obra literária, destaca-se o seu trabalho de antologista, compilador e historiador das actividades surrealistas em Portugal, sendo também a sua obra poética considerada um dos mais ricos e complexos contributos para a história da poesia portuguesa contemporânea.
Para Cesariny, homossexual assumido, o amor era
"um desmesurado desejo de amizade", em que "o outro é um espelho sem o qual não nos vemos, não existimos", e "a única coisa que há para acreditar".
"[É] o único contacto que temos com o sagrado. As igrejas apanharam o sagrado e fizeram dele uma coisa muito triste, quando não cruel. O amor é o que nos resta do sagrado",
defendia. Sobre as sessões para que o convidavam e em que o aplaudiam, o poeta comentava: "Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir sozinho para casa. Isto é a glória literária à portuguesa".
Em 2005, recebeu as duas únicas distinções da sua carreira: o Grande Prémio Vida Literária APE/CGD, pelo conjunto da sua obra, e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, que lhe foi entregue pelo então Presidente da República Jorge Sampaio.
Nos últimos anos de vida, desenvolveu uma frenética actividade de transformação e reabilitação ou "redenção" do real quotidiano, da qual nasceram muitas colagens com pinturas, objectos, instalações e outras fantasias materiais.
"Gostava de ter daquelas mortes boas, em que uma pessoa se deita para dormir e nunca mais acorda", afirmou em "Autografia".



Obras


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Corpo Visível, 1950;
Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano, 1952;
Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos, 1953;
Manual de Prestidigitação, 1956;
Pena Capital, 1957;
Alguns Mitos Maiores e Alguns Mitos Menores Postos à Circulação pelo Autor, 1958;
Nobilíssima Visão, 1959;
Poesia, 1944-1955;
Planisfério e Outros Poemas, 1961;
Um Auto para Jerusalém, 1964
Titânia e A Cidade Queimada, 1965;
19 Projectos de Prémio Aldonso Ortigão Seguidos de Poemas de Londres, 1971;
As Mãos na Água e na Cabeça, 1972;
Burlescas, Teóricas e Sentimentais, 1972;
Primavera Autónoma das Estradas, 1980;
Vieira da Silva, Arpad Szenes ou O Castelo Surrealista, 1984
O Virgem Negra, 1989;
Titânia, 1994.

Faz-me o favor

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor -- muito melhor!

Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.



QUASE

Poema de Mário de Sá Carneiro


Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…


Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido…


Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama

Entanto nada foi só ilusão!


De tudo houve um começo … e tudo errou…
— Ai a dor de ser — quase, dor sem fim…
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…

Momentos de alma que,desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…


Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…


Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…


Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…




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Grupo de Mário Cesariny


Mário Cesariny, atribui sentimentos a pequenas coisas do dia-a-dia, na minha opinião. O poema que mais de agradou foi o "Faz-me o Favor", visto que expressa um pedido de uma maneira simples e delicada para a pessoa amada. Conclu-o que é ainda, um grande pintor e recitador de poemas do século xx.






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"Este é o meu testamento", 1994, Mário Cesariny.